quarta-feira, 4 de maio de 2016

OS GATOS de FIALHO DE ALMEIDA



É um livro de contos do Fialho de Almeida com selecção e introdução de Maria Antónia C. Mourão e de Maria Fernanda P. Nunes. Já tinha lido dois livros deste autor que considero imprescindível e gostei imenso desta introdução que ocupa cerca de um quarto do livro e que nos dá a conhecer a vida e  personalidade do escritor que pelos vistos não era propriamente um santinho, como aliás ele aqui dá a entender,  neste primeiro texto da colectânea que aqui vos deixo:


"MEUS SENHORES, AQUI ESTÃO OS GATOS!"

"Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato.

Ao crítico deu ele, como ao gato, a graça ondulosa e assopro, o ronrom e a garra, a língua espinhosa e a câlinerie. Fê-lo nervoso e ágil, reflectido e preguiçoso; artista até ao requinte, sarcasta até à tortura, e para os amigos bom rapaz, desconfiado para para os indiferentes, e terrível com agressores e adversários. 
- Um pouco lambareiro talvez perante as belas coisas, e um quase nada céptico perante as coisas consagradas; achando a quase todos os deuses pés de barro, ventre de jibóia a quase todos os homens, e a quase todos os tribunais, portas travessas. - Amigo de fazer jongleries com a primeira bola de papel que alguém lhe atire, ou seja um poema, ou seja um tratado, ou seja um código. - Paciente em aguardar, manso e apagado, com um ar de mistério, horas e horas, a sortida  de um rato pelos interstícios de um tapume, e pelando-se, uma vez caçada a presa, por fazer da agonia dela uma distracção; ora enrolando-a como um cigarro, entre as patinhas de veludo; ora fingindo que lhe concede a liberdade, atirando-a ao ar, recebendo-a entre os dentes, roçando-se por ela e moendo-a, até a deixar num picado ou num frangalho.
Desde que o nosso tempo englobou os homens em três categorias de brutos, o burro, o cão e o gato- isto é, o animal de trabalho, o animal de ataque, e o animal de humor e fantasia- porque não escolhermos nós o travesti do último? É o que se quadra mais ao nosso tipo, e aquele que melhor nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro.
Razão por que nos acharás aqui, leitor, miando pouco, arranhando sempre, e não temendo nunca."

sábado, 30 de abril de 2016

profissional do vício


O profissional de saúde
proibiu o vício
que faz eclodir duas montanhas
no meu peito
à velocidade de um comboio chamado contágio
e congrega espasmos e medos
na sobrecarga dos músculos
o vício que eriça o ventre
o vício que se propaga na volta
correio que a saliva traz

que exagero
ó senhor profissional
que excesso zelo
este é apenas um singelo vício
inocente no impacto estrondoso
imponente sim
e no entanto doce

ainda está por vir o vício
que me há-de matar
se for outro que não o maior de todos
e haverá maior vício
que viver?













terça-feira, 26 de abril de 2016

Histórias para não contar




Antigamente tinha sempre muitas histórias para contar. Por isso escrevia. Escrevia para mostrar aos outros o que me tinha acontecido ou o que via acontecer à minha volta. Escrever era revelar. Como na Fotografia.
Agora a tarefa tornou-se mais complicada. Quanto mais vivo mais tenho o que escrever e menos me lembro dos pormenores. Agora que existe uma história, a minha história, e a ambição de a contar, veio a memória e baralhou-me os capítulos. O tempo roubou-me as certezas e tudo se apresenta trémulo, desfocado, duvidoso. Entre o que aconteceu e o que consigo lembrar não imagino onde fica a verdade.
Talvez por isso tenha começado a escrever poesia. A poesia serve mais para esconder do que para contar. E o que tenho para colocar na página são coisas ocultas, as quais, eu própria, só consigo alcançar de forma parcial.

músculo usado

Geometric Heart, Kenal Louis


Aqui vos trago
este músculo usado,
entrego também os pontos,
os arames que o prendiam,
as correntes, os freios
de travagem.
Agradeço outro para a troca.
Aqui repousa
este músculo usado
nas minhas mãos,
ainda mexe
batendo baixinho.
Quero trocar por um igual
mas diferente
(é preciso sinal?)
o último modelo, talvez,
o de couraça metálica
resistente aos impactos
e de pequenos orifícios
para a respiração das feridas.
É caro.
Mas dura uma vida.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

sonho mau


The Reclining Womam, Egon Schiele


o corpo cola
o chão da cama
suando
lençois de lama
queima o colchão
essa chama
o sono incendiado

domingo, 17 de abril de 2016

ilhas

Desert Island, Sean Coen



ilhas
ilhas
ilhas
somos ilhas
desertas, sedentas, obstinadas
as folhas da palmeira
são os braços
incapazes de remar
as pernas estão
fincadas no oceano
o corpo não se move
não se move
o corpo não se move
penas estendidas
paradas ao sol
ilhas
ilhas
somos todos ilhas
ilhas
tão longe da terra
como do céu
e a água é o fio
o fio
que nos liga
e separa

quinta-feira, 14 de abril de 2016

causalidade



  
Uma aspirina
ao pequeno almoço
não causa atropelamento.
Mesmo que eu hoje
tenha tomado uma aspirina
ao pequeno-almoço
e cinco minutos depois
levasse
com um autocarro em cima.
Por acaso foi numa passadeira.
Não matem as zebras, por favor!
Oiço o amola-tesouras ao fundo,
anunciando-se com a sua flautazinha
costumeira:
sinal de chuva.