terça-feira, 26 de abril de 2016

músculo usado

Geometric Heart, Kenal Louis


Aqui vos trago
este músculo usado,
entrego também os pontos,
os arames que o prendiam,
as correntes, os freios
de travagem.
Agradeço outro para a troca.
Aqui repousa
este músculo usado
nas minhas mãos,
ainda mexe
batendo baixinho.
Quero trocar por um igual
mas diferente
(é preciso sinal?)
o último modelo, talvez,
o de couraça metálica
resistente aos impactos
e de pequenos orifícios
para a respiração das feridas.
É caro.
Mas dura uma vida.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

sonho mau


The Reclining Womam, Egon Schiele


o corpo cola
o chão da cama
suando
lençois de lama
queima o colchão
essa chama
o sono incendiado

domingo, 17 de abril de 2016

ilhas

Desert Island, Sean Coen



ilhas
ilhas
ilhas
somos ilhas
desertas, sedentas, obstinadas
as folhas da palmeira
são os braços
incapazes de remar
as pernas estão
fincadas no oceano
o corpo não se move
não se move
o corpo não se move
penas estendidas
paradas ao sol
ilhas
ilhas
somos todos ilhas
ilhas
tão longe da terra
como do céu
e a água é o fio
o fio
que nos liga
e separa

quinta-feira, 14 de abril de 2016

causalidade



  
Uma aspirina
ao pequeno almoço
não causa atropelamento.
Mesmo que eu hoje
tenha tomado uma aspirina
ao pequeno-almoço
e cinco minutos depois
levasse
com um autocarro em cima.
Por acaso foi numa passadeira.
Não matem as zebras, por favor!
Oiço o amola-tesouras ao fundo,
anunciando-se com a sua flautazinha
costumeira:
sinal de chuva.

sexta-feira, 25 de março de 2016

pio




perdi o fio à meada
no labirinto das palavras
abandonei a voz
cortei o pio
no frio metálico
o gume gélido
daquelas sete pedras
a língua emaranhada
do silêncio
inundando de dúvida
a saliva
aos cantos da boca
pequenas notas surdas
que me calam
congelo no fogo cruzado
das linhas por escrever

Espelho meus




Aos vinte
não me via
ao espelho.
O corpo era um dogma,
dado adquirido.
O corpo estava no olhar
do outro.

Aos quarenta e sete
olho-me diariamente.
Encontro figuras
desconhecidas
em mutação permanente.
Há uma urgência
de invalidar esses sinais,
erros do espelho,
do vidro,
da retina,
da mente,
da própria realidade,
o que para todos os efeitos
vai dar ao mesmo.