sábado, 6 de fevereiro de 2016
Fantasma ao quadrado
já esqueci o teu perfume
não me lembro do discurso
baixei da voz o volume
fugiu-me da ideia o verso
já vai turvo o teu sorriso
do olhar perdeu-se o espanto
da eloquência ao improviso
tudo se abafa na memória
já não oiço a gargalhada
anulei a tal gentileza
apaguei essa coisa sonhada
o teu olhar de dúvida e tristeza
o fantasma de um fantasma
uma sombra que esmorece
a teima que não entusiasma
uma história que desaparece
mas se isto é o fim do caminho
se tudo acaba, mesmo a poesia
porque não arranco este espinho
e vou remoendo esta amnésia?
a liberdade possível
albarda-se o burro
à vontade do burro
burro albardado
tem mais encanto
mais tino
não se olha o canino
não se olha o pepino
não se olha o focinho
albarda-se de pequenino
ou amocha sozinho
sem dono
um burro às barrigas
obedece
que as há
para todos os gostos
não se discutem
nem os bons
nem os maus
e até há quem diga
que o burro sou eu
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
Nevermind
![]() |
| Pedro Almodovar, La piel que habito |
Esquece lá isso,
o meu corpo foi uma palavra,
soletro.
Não, esquece,
o Sol foi uma grande palavra,
a música era composta por pequenas palavras,
foram só palavras,
passo.
Bebo,
o whisky é uma palavra que pica
na garganta, a tristeza
é uma palavra, lágrimas
são palavras, caem e
aqueço.
As luzes são só palavras,
os lábios moelas
de areia digerindo
pontos negros,
buracos negros,
enxames de palavras.
Esquece tudo,
os cálculos de palavras alucinadas,
a fraca alternativa desviante
aos teus silêncios envenenados.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
os olhos da avó
Às vezes no espelho
pareço a minha avó.
Os meus olhos grandes
afogados
nas olheiras
são os seus olhos
pequenos
e aceito a nossa
derrota hereditária.
pareço a minha avó.
Os meus olhos grandes
afogados
nas olheiras
são os seus olhos
pequenos
e aceito a nossa
derrota hereditária.
Pavlov
Lembro-me de desenhares a constelação do cocheiro com a canadiana erguida sobre os pontinhos brilhantes.
Ensinavas-me a jogar
xadrez e eu ficava a pontos de perceber o que era um homem, contente
por tudo o que ia aprendendo com as tuas mãos grossas e com a tua
voz grave.
O som que os teus
passos faziam era a minha música preferida e até hoje esse
tique-tique metálico é a minha campainha da Pavlov. Seja quem for
que venha a passar dou por mim a sorrir no segundo que antecipa a
percepção de que não és tu.
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