sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Nevermind


Pedro Almodovar, La piel que habito



Esquece lá isso,
o meu corpo foi uma palavra,
soletro.
Não, esquece,
o Sol foi uma grande palavra,
a música era composta por pequenas palavras,
foram só palavras,
passo.
Bebo,
o whisky é uma palavra que pica
na garganta, a tristeza
é uma palavra, lágrimas
são palavras, caem e
aqueço.
As luzes são só palavras,
os lábios moelas
de areia digerindo
pontos negros,
buracos negros,
enxames de palavras.
Esquece tudo,
os cálculos de palavras alucinadas,
a fraca alternativa desviante
aos teus silêncios envenenados.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

galope

o declínio
cavalgado
a galope

exercício culinário

gemas resgatadas
às claras
com perícia
com tradição
e naturalidade

os olhos da avó

Às vezes no espelho
pareço a minha avó.
Os meus olhos grandes
afogados
nas olheiras
são os seus olhos
pequenos
e aceito a nossa
derrota hereditária.

Pavlov



Lembro-me de desenhares a constelação do cocheiro com a canadiana erguida sobre os pontinhos brilhantes.
Ensinavas-me a jogar xadrez e eu ficava a pontos de perceber o que era um homem, contente por tudo o que ia aprendendo com as tuas mãos grossas e com a tua voz grave.
O som que os teus passos faziam era a minha música preferida e até hoje esse tique-tique metálico é a minha campainha da Pavlov. Seja quem for que venha a passar dou por mim a sorrir no segundo que antecipa a percepção de que não és tu.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Estrela Distante



O fumo de um pequeno
avião de combate antigo
desenhando traços no céu,
poemas quase perfeitos
nas simulações aéreas,
assombro do omisso
e implacável piloto-poeta.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

pele






A pele nunca se cala. A pele sabe falar. Foi por isso que fugiste ao meu primeiro toque. Por medo que a pele me contasse os teus segredos. Na altura não percebi. Andei como que cega. Mas agora é como se visse que não tinhas alternativa. A fuga foi a tua salvação. Eu não podia saber, ninguém podia saber, dessa tragédia que te consome. A pele queria falar. A pele aborta o silêncio. É por isso que o toque conhece tudo no primeiro instante. O calor que vem da pele. O frio que vem da pele, a solidão.
A pele sente necessidade de falar. Conta tudo, entrega os pontos, desabafa, chora, é a  rendição total. E a fuga, por vezes, é a única maneira de iludir a morte.