segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
Porque é Natal
O nosso coração rejubila de emoção,
Finalmente, chegou mais um Natal.
Tudo está iluminado e brilhante
E há boa desculpa para voltar ao Centro Comercial
Porque mais uma vez é Natal.
É uma época de grande paz interior
Pois nasceu o... quem era esse menino afinal?
E prós doentes as Festas viram festival
Os pimbas cantam no palco do Hospital:
Não sejam piegas, é Natal!
Podemos descansar das tragédias do jornal
Do pensamento fazemos um intervalo,
Porquê? Porque é Natal.
Tudo a rasgar dos presentes o laçarote
Das caixas deixadas pelo barbudo velhote
A minha família quase parece normal
Todos à mesa na galhofa e a comer o peixote,
Claro, é Natal!
Tudo corre bem e de feição,
Os doces fritos nem sequer fazem mal
Não engordam nem causam
Refluxo do suco estomacal
Só porque é Natal.
É do ano a noite mais tradicional
Pró comunista e pró fã do capital
Ó estúpido, é o Natal!
sábado, 19 de dezembro de 2015
O velho que queria matar o cão
| Beckett, o meu cão |
O cabrão de um
velho
levantou a enxada
para atacar o meu
cão.
Lancei os gritos
afiados
que se cravaram nos
braços
perfurando-lhe a
intenção
que uma levada não
é
mais importante que
um animal
feliz, o meu amigo.
Se as palavras
pudessem matar
haveria mortes pelo
pedaço
de terra baldia,
árida,
mortes por hortaliça
poluída
dos escapes dos
veículos
leves e pesados,
indiferentes.
Mas o meu cão
sorria com a boca
e por todos os
dentes,
de língua rosada,
vergada
ao peso da alegria
sem freio
e os olhos foram
dois discursos de paz,
imune ao ódio
do momento e assim
me calou com o seu
abanar
de cauda bandeira
branca.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
o tempo todo
o tempo todo
a esmagar
o corpo todo
a doer todo
o tempo
todo
o corpo doendo
esmagando o tempo
todo o corpo
passando no tempo
a doer todo
a passar todo
no corpo
o tempo
a doer
torto
sábado, 5 de dezembro de 2015
Senhor Américo
O senhor Américo tem uma mercearia ao pé da minha casa.
O senhor Américo dá bocadinhos de fiambre aos meus cães quando lá vou.
O senhor Américo gosta de todos os cães das suas clientes.
Não há cão que não goste de visitar a mercearia do senhor Américo.
Ouvi dizer, um dia, que quando o senhor Américo morrer terá a mais longa matilha no seu funeral.
Não creio que exista imagem mais digna e consoladora de um funeral.
O senhor Américo dá bocadinhos de fiambre aos meus cães quando lá vou.
O senhor Américo gosta de todos os cães das suas clientes.
Não há cão que não goste de visitar a mercearia do senhor Américo.
Ouvi dizer, um dia, que quando o senhor Américo morrer terá a mais longa matilha no seu funeral.
Não creio que exista imagem mais digna e consoladora de um funeral.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
vento divino
![]() |
| Salome, Rafal Olbinski para Strauss |
Deponho decapitada
a teus pés
o pedaço da cabeça,
o caroço,
Salomé,
(o pescoço
não chora)
recebe o meu
suicídio benigno,
saboreia.
Não chores
(como se chorasses),
não dances
(como se dançasses),
não te canses.
Chegou ao fim
esse meu longo plano
kamikaze
inflamado p'lo tempo,
um vento divino,
que não havia meio
de aterrar,
mas planando no alto
foi cair no colo
do teu medo,
quando eu era
João,
voluntariamente.
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
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