quinta-feira, 8 de outubro de 2015

o Tempo e o Medo

Entre o Medo e o Tempo prefiro o Medo. O Medo posso controlar, oTempo não.

riso

o riso vem da terra
raízes fundas
sondando gargalhadas
junto aos veios de água
sobem às folhas
que o vento há-de espalhar
como riso 

the end

o homem é ego
o ego é filigrana
a filigrana é faca
a faca é arma
a arma é morte
a morte é começo
o começo é o fim

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Depois das Eleições




Lembro-me do dia seguinte ao sufrágio que conduziu o Mário Soares à presidência da república pela primeira vez. Tinha dezasseis ou dezassete anos e ainda não podia votar mas aquela foi a eleição da minha vida. Nunca mais voltaria a viver de modo tão intenso uma campanha e um acto eleitoral.
Pois nesse dia, na escola, numa aula de Matemática, com uma professora que tinha sido freira, pelo menos era o boato que circulava, o ambiente era de cortar à faca. “A Democracia é uma coisa muito estúpida!” disse ela virada para a turma, com os olhos chispando de raiva. Olhava para ela, estarrecida, tentado manter a compostura pois sabia que ela falava para mim.
Meses antes, naquela mesma aula da manhã de segunda-feira, tinha havido festa quando o Freitas do Amaral passava à 2ª volta com larga margem e o Mário Soares passava à rasquinha.
Em pleno período de aprendizagem da disciplina de Matemática, alunos e alunas, sob o olhar orgulhoso e feliz da professora, abraçavam-se efusivamente, dando vivas e alvíssaras.
E agora tudo tinha ido por água abaixo. Naquele tempo tinha acabado de perceber a diferença entre Esquerda e Direita. Para surpresa minha estava num liceu maioritariamente frequentado por filhos de gente de Direita. As meninas usavam todas os mesmos casacos de fazenda verde seco, giríssimos, como se sentissem uma necessidade de serem uniformizadas. E elas e eles colavam nas roupas os autocolantes do seu candidato, o candidato da Direita. Eu observava, isolada, calada, a festa dos outros. Todos os jovens, mesmo os não votantes, iam aos comícios, e prolongavam-nos no recinto escolar. Era talvez a febre da descoberta da livre escolha dos nossos destinos, uma paixão política que talvez só seja possível na idade da inocência.
Um dia uma rapariga de outra turma, que conhecia só de vista, apareceu com um autocolante do Mário Soares, que dizia apenas Soares é fixe, com uma bola redonda amarela com um sorriso. Parecia um ícone do Facebook. Foi um escândalo. Senti-me tão inspirada pelo gesto heróico daquela colega que resolvi, no dia seguinte, colar um também. O olhar da turma era fulminante mas o da minha professora de Matemática era aterrador. Nunca mais gostou de mim. Depois daquilo que ela considerou uma derrota pessoal, passou a tomar-me de ponta. Insultou a Democracia e achava que eu era parte do grupo dos tais estúpidos que deram a maioria a um presidente de Esquerda.
Mas a Democracia não é a vitória dos espertos contra os estúpidos nem o seu contrário.
Se ela pudesse prever o futuro naquela época, veria que o seu candidato nem era assim tão mais à Direita do meu. Eu veria que o meu candidato não assim tão mais à Esquerda do candidato da minha professora de Matemática.
Enquanto houver Democracia podemos acreditar, apenas, que ganha a maioria e que, haja o que houver, passados quatro anos, existe uma hipótese de tudo poder voltar a entrar nos eixos. Se a maioria assim o quiser.
E isso é tudo menos estúpido.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

braço de ferro

Ele falava com ela por delicadeza.
Foi respondendo por boa educação.
Mas no braço de ferro do tédio contra a compaixão,
e também porque era desprovido de vaidade,
o primeiro foi mais forte,
que não há pachorra para velhas.

no end

as mãos nos lábios
o fim de todas as histórias inacabadas
as histórias sem paz

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

JOHN CHAUFFEUR RUSSO

Uma vez conheci uma miúda na paragem do autocarro. Quer dizer, vi-a muitas vezes, ela apanhava a mesma camioneta da Vimeca que eu e ficámos amigas. Era mais ou menos da minha idade, talvez dois anos mais nova, era baixinha e tinha cabelo loiro muito comprido e liso. Não me lembro do seu nome. Simpatizava com ela e um dia, não sei bem porquê, acabámos por meter conversa uma com a outra. Coisa rara em mim, falar com estranhos na rua. Mas ela não era propriamente uma estranha, afinal via-a praticamente todos os dias fazia meses. Palavra puxa palavra, fiquei a saber que estudava em Algés e a certa altura convidei-a para ir lá a casa. Ninguém estranhou, era só mais uma amiga. Disse-me que gostava de ler mas que não tinha muitos livros. Gostava de histórias românticas, mas mesmo românticas, daquelas que acabavam bem. Fui buscar-lhe uns livros da Corín Tellado que eram da minha avó e um que me era especialmente querido da Max du Veuzit chamado John Chauffeur Russo. Nunca mos devolveu. A certa altura desapareceu da zona, nunca mais a vi.
Conhecer pessoas na paragem do autocarro, naquele tempo, era tão arriscado como fazer amigos na Internet hoje em dia.
Ainda hoje choro aqueles livros do tempo da minha avó. Eram uma espécie de relíquia sagrada.
Se a memória não me atraiçoasse tanto podia reclamar a minha herança perdida, através do Facebook.