terça-feira, 9 de junho de 2015

Por uma unha negra




Por uma unha negra
a montanha não era o abismo
a pedra despediu do peito
o coração esperou
a entrada do mar
sem morrer

Por uma unha negra
o coração cavalgou
a onda do silêncio
chuva apertada
olhou a encruzilhada
no país longínquo
e arregalado decidiu
por uma unha negra
tudo outra vez

BARRIGA DE POEMAS NA FEIRA DO LIVRO DE LISBOA



Hoje, Terça-feira dia 9 às 19 horas estarei no pavilhão C06, das Edições Vieira da Silva.
Uma Barriga, um autógrafo, dois dedos de conversa.
Na Feira do Livro de Lisboa, claro.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

dois dedos

"Mulher reclinada com cobertor ocre" de Egon Schiele



Apanha-me ainda
por vezes
de surpresa
alguma parte
da minha anatomia
dou dois dedos
de conversa ao corpo
auscultando
ouvindo
resgatando
a respiração
entrecortada
companhia geminada
de ritmo
até ao grito
final


frio



nasci
com o poder do frio
o vício do frio
esse fogo gelado
o seu ardor na pele
o torpor do corpo
o metal a correr nas veias
agulhas cosendo
o silêncio
único sólido
pensamento
a invadir o peito





galinhas e pactos



Galinhas sem cabeça, patos
sem penas, gangrena,
são piteús, da lama
para mesa,
pactos clandestinos
compotas de gorgomilo
do burgesso em dia
de bródio.
Tuberculose com brócolos,
flutes de sangue
e salada.
De sobremesa
cuspo nos calos
e bagaço nos gilvazes.
Comece a sarabanda!


frases feitas

As coisas são como são. Essa é que é essa. Não vale a pena estar com paninhos quentes, tapar o sol com a peneira ou dourar a pílula. Há quem prefira enterrar a cabeça na areia mas eu sempre enfrentei o touro pelos cornos. Ou sim ou sopas!
As coisas são como são. Não há volta a dar. Agora há que continuar em frente, com a cabeça entre as orelhas. Não adianta chorar sobre leite derramado, aliás quem mais chora menos mija, já dizia a minha avó. Há pessoas que de qualquer coisinha fazem um bicho de sete cabeças mas a vida são dois dias, há que ver as coisas pela positiva.
As coisas são como são. Sempre foram. Sempre serão. Tentamos reverter a ordem natural das coisas para quê? Acabamos por ter de dar o braço a torcer. E perde-se tempo precioso. E, como toda a gente sabe, tempo é dinheiro. Convem lembrar que o dinheiro pode não trazer a felicidade mas ajuda muito. Logo é melhor não fazer ondas. Bater a bolinha baixa que o guarda-redes é anão.
As coisas são como são.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Desconfiança

Grave não é alguém não gostar de nós. O amor é sempre involuntário e aleatório. O desamor não é pessoal, não pode ser.
Grave é a falta de confiança injustificada.
Mas será que podemos recriminar alguém por não confiar em nós? Mesmo que tenhamos a firme convicção de que somos  totalmente confiáveis, pelo menos naquele caso concreto. Como esperar que o outro saiba o que nos vai na alma? Alguém se conhece de facto? Alguém nos conhece?
Amor e confiança. Dois ramos que nascem da mesma raiz. Braços paralelos. Simétricos. Semelhantes. Dois ramos igualmente cegos.