O vazio é o Tempo. Não começa, não acaba. Existe para sempre, desde sempre. Só.
A vida corre-lhe paralela.
Talvez se tenham tocado no momento inicial.
Talvez se voltem a tocar no fim de tudo.
quarta-feira, 3 de junho de 2015
domingo, 24 de maio de 2015
beijo suicida
um beijo ensurdecedor
como um grito
um beijo que não se cala
um beijo que não obedece
um beijo de língua
afiada
cerdosa
um rugido
um beijo-coice
cavalo
selvagem
um beijo blasfemo
um beijo suicida
como um grito
um beijo que não se cala
um beijo que não obedece
um beijo de língua
afiada
cerdosa
um rugido
um beijo-coice
cavalo
selvagem
um beijo blasfemo
um beijo suicida
quinta-feira, 21 de maio de 2015
PANTUFA
| Pantufa, de férias na Beira Baixa, a olhar para o maluco do Beckett |
O meu
nome é Pantufa. Podem achar que é um nome vulgar mas o que foge à
regra é facto de eu ter nome. Isto de um cão de rua ter nome não é
para qualquer um... A maioria dos meus companheiros é anónima.
Ninguém os chama, ninguém os distingue de todos os outros.
Tive
sorte. Vivi quinze anos na rua. Sem dono. Mas com alguns amigos. E
nesta vida de cão o que faz a diferença são os amigos.
A
memória mais antiga que tenho é de ter chegado aquela rua principal
de localidade suburbana que poucos sabem onde fica e os que sabem
preferiam desconhecer. O local não era nada de extraordinário, mas
logo no primeiro dia as pessoas foram simpáticas para mim:
ofereceram-me água. Bebi com sofreguidão de cachorro que passara
horas a correr. Foi no quiosque de jornais e logo ali começei a
somar amizades. Do outro lado da rua cheirou-me a carne. Fui ver e
era o talho. E não é que o proprietário gostou de mim?
Alimentou-me. Foi muito bom. Por ali fiquei vagueando de uma lado
para outro da rua. Uns davam-me festas, outros achavam-me graça ao
pêlo e alguém disse que eu parecia uma pantufa e Pantufa fiquei.
Certo
dia uma senhora idosa teve pena de me ver a dormir à noite enrolado
num tapete à entrada do prédio e deixou-me entrar na garagem.
Fez-me uma cama de papelão. Nunca tinha dormido numa coisa tão
quente e confortável. Fiquei feliz. No outro dia de manhã veio
muito cedo ter comigo e empurrou-me dali para fora. Confuso, lá fui
eu para o meio da rua, a chover e tudo. Mas quando chegou a noite
voltou a chamar-me para a cama que passou a ser minha. Só podia
ficar de noite, que ela lá deveria ter as suas razões. Mas já não
era nada mau.
E a
vida passou vagarosa e sem grandes sobressaltos durante catorze anos,
tirando uma ferida ou outra mais funda que sarava por si ou com
betadine que a senhora idosa despejava no meu lombo. Não sou muito
grande mas sou cão bravo e respeitado pelos outros camaradas de luta
e não permito que ninguém viole as fronteiras do meu território.
Um dia
custou-me muito ter de deixar a cama de papelão. Ao segundo pontapé
da velhota lá abri os olhos e implorei que me deixasse dormir mais
um pouco. Mas à terceira paulada de cabo de vassoura percebi que não
seriam admitidas excepções e concordei em fazer-me à estrada. Não
senti forças para completar a minha ronda matinal pelas paredes e
árvores habituais e a meio percurso voltei para trás, procurei uma
sombra e enrosquei-me numa bola. Passei a dormir mais. Cada vez mais.
Reparava agora que as pessoas já não eram tão simpáticas. Não me
faziam tantas festas. Depois senti a falta de me tocarem. E com
espanto começei a notar que se afastavam de mim com repugnância.
Fiquei triste.
Além
disso perdia muito pêlo e com a avançar do Inverno sofria cada vez
mais com o frio. E para piorar ainda mais a situação sentia uma
comichão medonha constante, pelo corpo todo e me obrigava a coçar-me
sem parar. Deixei de conseguir correr. Tinha dores ao andar. Depois
eram dores no corpo todo. Perdi o interesse na vida.
Um
dia, estava eu como já era costume, deitado no asfalto quente da
estrada a ver se aquecia, pois estava um daqueles bonitos dias de
Dezembro mas frios como lâminas aguçadas, chegaram duas moças e
pegaram-me ao colo. Foi uma surpresa. Reconheci-as. Eram talvez as
únicas que não se afastavam à minha passagem. Bem simpáticas.
Confiei nelas. Ainda assim tive medo. Andei pela primeira vez
naqueles cubículos com quatro rodas que toda a minha vida vira
passar. Não durou muito a viajem. Cheguei a uma casa onde estavam
vários animais. Pelo menos lembro-me de dois cães e um gato que na
verdade nem vi pois estava muito encolhido dentro de uma caixa
colorida. Mas o meu nariz não me engana. Fizeram-me esperar a manhã
toda dentro de uma sala muito pequena e escura. Até que me vieram
buscar. Um homem novo e uma mulher menos nova mas sem ser velha.
Muito mais nova que a “minha” velhota. Mexeu muito em mim o que
me deixou espantado. E depois molhou-me com água quente e mexeu
muito mais. O cheiro que a água tinha era estranho e intenso. Ora
para meu espanto soube-me bem. Fiquei mais confortável e com menos
comichões. Picaram-me algumas vezes na pele mas não me importei por
aí além, afinal eles falaram a bem comigo e pareciam simpáticos.
Por fim deixaram-me dormir numa cama tão boa que tinha até um
cobertor. Melhor ainda, no outro dia de manhã ninguém me correu a
pontapé. Dormi a manhã toda. De facto dormi as manhãs todas
durante um bom par de meses. Nunca imaginei que estivesse tão
cansado. Fez-me bem. Veio a Primavera e eu parecia uma flor a
renascer. Voltei a correr na rua, a espojar-me na relva, a brincar
com as pessoas. E aqui vivo até hoje. As pessoas da minha nova casa
gostam de me tocar e dão-me comida todos os dias. E eu para
agradecer esta nova vida, lambo-lhes as mãos. Já passou um ano
desde que aqui cheguei. Estão sempre a entrar e a sair animais.
Brinco com os mais amistosos. Aos gatos, esses seres arrogantes com a
mania das grandezas, nem ligo. Tenho a sorte de me esconderem dos
sarrafeiros. Esses fico a ouvi-los rosnar de fúria, com o rabinho a
dar-a-dar, por não me poderem chegar...
Descobri
que sou um belo ruivo de pêlo comprido. Um cão feliz.
ELISA DA CONCEIÇÃO
Há
pessoas que vivem no mundo das crianças toda a sua vida. Não querem
crescer.
Brincam
com elas de igual para igual. Assim era Elisa. Com os seus 70 anos, a
sua cara enrugada e corpo em tonel, era a mais divertida companheira
que eu podia imaginar. Sempre de preto, olhos pequenos de toupeira,
tinha um hálito bom, um cheiro a sabão nos braços e a hortelã nas
mãos e a voz parecia que ria de contentamento. Era assim que ela se
realizava: sendo o centro do universo duma criança de 4 anos. Elisa
era a madrasta da minha avó materna. Vivia na casa da sua enteada
mais nova, a minha tia do Ribatejo que eu visitava todos os
fins-de-semana. Eu gostava de todos daquela casa: da minha tia, tio,
primo; e delirava com os animais que coabitavam na casa. Os cães, as
cadelas, os cachorros, os gatos, as gatas e suas ninhadas. Mas quem
fazia as minhas delícias era a velha Elisa com quem brincava de
manhã à noite sem conseguir aborrece-la um único instante. Para
mim ela era a Ti’Lisa. A minha maior amiga.
Aquela
mulher palhaça era viúva e não tinha filhos. Tinha gerado já
tarde um bebé que nascera morto. Era uma menina. Quando contava a
história vi-a disfarçar uma lágrima. O marido fora um polícia
severo que por vezes lhe batia mas por quem ela demonstrava uma
devoção misturada com respeito e ternura. Eu testemunhava o seu
amor cada vez que lhe pedia para me mostrar a caixinha em forma de
coração que pendia do seu grosso cordão de ouro. Elisa abria a
caixa, mas antes de me mostrar a cara sisuda do homem fardado de
cinzento beijava-a enamorada. Após ter contemplado a foto que me
alimentava a imaginação ela guardava-a novamente junto ao peito
nunca sem antes lhe voltar a depositar um longo beijo. Esses eram os
breves momentos sérios que tínhamos nos intervalos das nossas
brincadeiras. Com ela eu podia brincar aos cavalinhos, às bonecas,
aos médicos ou aos cowboys. Tudo me era permitido, até pentear-lhe
a sua longa cabeleira branca após desmanchar o carrapito, e
fazer-lhe umas tranças para que se parecesse com a minha boneca de
trapos favorita.
A
comida que me oferecia tinha um sabor mais delicioso. O pão com
manteiga que me dava à boca após molhar no leite e que eu mordia,
entre voltas de bicicleta à roda do quintal, tinha um gosto
especial. Com ela o meu apagado apetite devido às amigdalites
constantes disparava. Tudo me parecia mais interessante e alegre. O
mundo era um local maravilhoso.
Elisa
era a segunda mulher do pai da minha avó materna. Casara com ele já
depois dos trinta e aturara esse homem estoicamente. Ele não tinha
um feitio fácil. Era polícia num regime com uma autoridade severa.
Educara as filhas com mão de ferro. E as duas moças tinham-lhe medo
antes do respeito. Tratava a mulher com dureza. Ela era-lhe
totalmente submissa. No último ano da sua vida ficara acamado. Para
além das escaras dos diabetes, Elisa aguentara a senilidade ou a
loucura que o fizera não a reconhecer e trocar-lhe o nome pelo o da
sua primeira mulher: Maria do Rosário. Depois da sua morte abraçou
o luto para o resto da vida.
Depois
de mim, esta velha senhora foi amiga do meu irmão e dos dois netos
da sua enteada mais nova. A todos fascinou. Os únicos seres para
quem ela foi verdadeiramente encantadora. Quando chegava a puberdade
despedia-se de nós imperceptivelmente e dedicava-se à criança que
se seguia.
Anos
mais tarde fui chamada a visita-la no hospital onde agonizava com uma
doença terminal. O tumor do fígado adivinhava-se debaixo da pele
esverdeada em forma de uma saliência descomunal. Sofreu durante
semanas um calvário de náuseas e dores sem remédio nem alívio.
Uma expiação cruel na passagem para o outro mundo de uma personagem
secundária no palco da sua própria vida. E assim morreu Elisa da
Conceição, a estrela mais brilhante que na infância morava no meu
coração...
quarta-feira, 20 de maio de 2015
IRREVERSÍVEL
Nunca
gostei tanto de ler o que alguém escreve sobre cinema.
Nunca
gostei tanto de ler o que alguém escreve.
Nunca
gostei tanto de ler.
Nunca
gostei tanto.
Nunca
gostei.
Nunca.
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