sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Dores de Cabeça

“ Tenho para mim que os críticos são pessoas que não contemplam as árvores. Pessoas assim andam perto de enlouquecer e sofrem de dores de cabeça permanentes. As árvores, como objectos que atraem a electricidade, como bem reparou o bom Benjamim Franklin, estão em condições de servirem de meio curativo a certas moléstias cerebrais que produzem a crítica.”

Agustina Bessa-Luís in Caderno de Significados

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Antony e a Poesia do Hematoma




Quem ouve o Cripple and the Starfish (O ALEIJADO E A ESTRELA-DO-MAR  na versão portuguesa de Nuno Miguel Lopes) pela primeira vez pode concluir apressadamente que é um hino ao masoquismo. Pode sentir uma certa perplexidade pelo contraste da suave melodia com a violência da letra. Mas ao contrário do que possa parecer o Antony não está a fazer a apologia da agressão física e da submissão ao abuso.
Ele faz uma denúncia, aponta um espelho para que a personalidade submissa se reveja. Ele dirige-se essencialmente à parte fraca da equação, à estrela-do-mar. Pois este é um poema de resistência e adaptação. E quem apanha e se refaz para apanhar de novo, resiste, adapta-se e sobrevive. É alguém que corta o dedo e o vê crescer como uma ponta de estrela-do-mar e ao ver o fenómeno vezes sem conta acredita, começa acreditar na sua invencibilidade, numa espécie de imunidade, uma dormência, que tudo permite sem consequências de gravidade.
O Antony ironiza com esta filosofia de resiliência eterna, de animal esponjoso, que é tudo menos humano. Os humanos não regeneram, ficam marcados, permanentemente danificados, destruídos.
Daí o tom de sátira desta letra.
Antony aponta também a cumplicidade, para não dizer a culpa, da vítima, que sempre desejou um amor com crueldade. De facto não há agressor sem agredido e cabe ao agredido perceber que não é feliz. Daí a insistência nas expressões de felicidade.

No “Fistufull of Love” ( UM PUNHO CHEIO DE AMOR  na versão portuguesa de Nuno Miguel Lopes), música alegre e ritmada, a cegueira da vítima é elevada a um outro nível. Tudo é desculpabilização da violência. Todas as marcas, todas as feridas, todas as cicatrizes, todos os hematomas são símbolos de amor, marcas de devoção. Os punhos fechados que batem fazem-no como prova de amor. Isto é um espelho apontado ao coração e ao rosto de todas as vítimas de violência doméstica: para que se vejam, e o vejam o seu engano.
Porque para mudar é preciso ver, aceitar, compreender que existe um problema, um erro, uma ferida aberta, uma necessidade de mudança.

Encontrei há pouco tempo outro tema do Antony sobre violência doméstica que se chama Virgin Mary. Espero publicar a sua tradução para português (também pelo Nuno Miguel Lopes) muito em breve.
Missão quase impossível é a de colocar em poesia uma realidade tão brutal como é a violência doméstica. Juntar agressão e amor numa mesma composição poética. Isso consegue como poucos o Antony Hegarty.

UM PUNHO CHEIO DE AMOR

Tradução para português de Nuno Miguel Lopes do original dos Antony and the Johnsons "Fistful of Love"

Esta noite estive deitado na cama a contemplar
Um tecto cheio de estrelas
Quando de repente me atingiu
Tenho mesmo de te dizer como me sinto
Vivemos juntos numa fotografia de tempo
Olho nos teus olhos
E os mares abrem-se a mim
Digo-te que te amo
E que será para sempre
E sei que não mo podes dizer
Sei que não mo podes dizer

Assim resta-me decifrar
As pistas, os pequenos símbolos da tua devoção
Assim resta-me decifrar
As pistas, os pequenos símbolos da tua devoção

E sinto os teus punhos
E sei que é por amor
E sinto o chicote
E sei que é por amor
E sinto o ardor dos teus olhos abrir buracos
Que queimam através do meu coração
É por amor
É por amor

Aceito e colecciono no meu corpo
As memórias da tua devoção
Aceito e colecciono no meu corpo
As memórias da tua devoção

E sinto os teus punhos
E sei que é por amor
E sinto o chicote
E sei que é por amor
E sinto o ardor dos teus olhos abrir buracos
Que queimam através do meu coração
É por amor, oh, oh
É por amor

Dá-me um pouco de carinho à séria
Dá-me um carinho forte
Sê carinhoso

Punhos, punhos, punhos cheios de amor…

O ALEIJADO E A ESTRELA-DO-MAR

 
 Tradução para português de Nuno Miguel Lopes do original dos Antony and the Johnsons "Cripple and the Starfish"


Sr. Músculo forçando, irrompendo
Ferroada de coisinho dentro de mim, mim, mim
Mas só “ondulado”, disse o aleijado
Quando ao chão me caiu o queixo
Sorri sorri

É verdade que sempre quis que o amor fosse
Cruel
E é verdade que sempre quis que o amor fosse
Repleto de dor
E hematomas

Então, o Porco-Aleijado estava feliz
Gritou “amo-te tão completamente!”
E não há sentido ou razão
Mudo como as estações
Vê! Até vou amputar o meu dedo
Voltará a crescer como uma Estrela-do-Mar!
Voltará a crescer como uma Estrela-do-Mar!
Voltará a crescer como uma Estrela-do-Mar!

Sr. Músculo, mirando entediado
Olhou às horas só para me agredir
E suspirei e sangrei como um vendaval
Felizardo ensanguentado, felizardo magoado

Estou muito feliz
Anda, por favor, bate-me
Estou muito feliz
Anda, por favor, magoa-me

Estou muito feliz
Anda, por favor, bate-me
Estou muito, muito feliz
Anda, vá lá, magoa-me

Voltarei a crescer como uma Estrela-do-Mar
Voltarei a crescer como uma Estrela-do-Mar
Voltarei a crescer como uma Estrela-do-Mar
Voltarei a crescer como uma Estrela-do-Mar

Voltarei a crescer como uma Estrela-do-Mar
Voltarei a crescer como uma Estrela-do-Mar
Voltarei a crescer como uma Estrela-do-Mar
Voltarei a crescer como uma Estrela-do-Mar
Como uma Estrela-do-Mar…

Assim Seja

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Mudemos de Assunto


Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos
E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e mal eu gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa
E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade
Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que enfuna as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo
Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?

Sérgio Godinho

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Um Sinal

O corrector automático deste blogue não reconhece a palavra "inteligência" e também não dá alternativas ou sugestões. Deve ser um sinal. Só não sei de quê.